White Rabbit (Grace Slick)


Aborrecida ao lado da sua irmã, que lia um livro sem imagens nem diálogos, num dia quente que a fazia sentir-se sonolenta e um pouco estúpida, Alice preparava-se para fazer um colar de margaridas, quando um coelho branco de olhos cor de rosa passa a correr ao seu lado, apressando-se em retirar um relógio do bolso da sua jaqueta ao exclamar: “Oh dear! Oh dear! I shall be too late!” Surpreendida com tudo isto e despertada pela curiosidade, Alice corre atrás do coelho para dentro de uma toca. E assim começa um dos mais extraordinários contos para crianças, Alice no País das Maravilhas, escrito por Lewis Carroll, aliás, pelo reverendo Charles Dodgson, em 1865, tornando-se também uma das obras clássicas da literatura inglesa mais lidas à beira da cama dos meninos e meninas nos países anglo-saxónicos. Pelo menos, assim o fizeram os pais da menina Grace Barnett Wing e os ecrãs de cinema na América que nos seus olhos reflectiram as imagens do clássico homónimo da Disney, Alice in Wonderland. Em 1965, já casada com Jerry Slick e inspirada pela expressão do presidente americano Lyndon Johnson, Grace formou os The Great Society, onde era a principal vocalista e autora de grande parte das canções e das letras. Uma delas haveria de tornar-se num dos hinos da geração ácida nos Estados Unidos da América e, segundo as suas próprias palavras, uma estalada nos pais americanos que se espantavam e opunham a essa nova geração e à sua cultura psicadélica, quando haviam sido eles os próprios a cultivar as experiências da Alice com cogumelos, biscoitos e chás alucinogénios nos seus rebentos à hora de deitar.


Foi precisamente “White Rabbit”, a canção inspirada nesse coelho nervoso e apressado, o arauto da Rainha de Copas, que de modo fortuito arrastou Alice e Grace consigo para dentro de um mundo onde a lógica e a proporção desafiavam as suas consciências e as suas percepções, onde elas conheceram uma lagarta azul que fumava de um cachimbo de água, um gato de Cheshire cujo sorriso remanescia depois do seu desaparecimento e um louco chapeleiro a tomar chá com um rato silvestre para celebrar um não-aniversário. Um rol de referências codificadas poética e musicalmente no maior hit dos Jefferson Airplane, a banda que acolheu Grace Slick, para participar no segundo álbum do grupo, “Surrealistic Pillow”, editado em 1967, e que incluíu uma segunda versão de “White Rabbit”, tal como “Somebody to Love”, outro grande tema de Grace Slick, importado dos The Great Society.

A influência deste tema seria tão grande que acabaria por ser repetida vezes sem conta, em inúmeras e variadas versões, desde a de George Benson, no álbum com o mesmo nome de 1971 até Patti Smith no seu álbum de versões “Twelve” de 2007, passando pela versão dos anos oitenta do grupo punk The Damned. Usada ainda muitas vezes em bandas sonoras de filmes, nomeadamente, “Platoon” de Oliver Stone em 1986, ou “Fear and Loathing in Las Vegas”, o alucinado filme de Terry Gilliam baseado no romance de Hunter S. Thompson, mas também em alguns episódios de programas televisivos, spots comerciais e referida em livros como “Insomnia” de Stephen King. Acabaria por se tornar um lugar comum da cultura popular e graças à sua fama difundir-se-iam mesmo alguns equívocos e lendas urbanas como o facto discutido e ainda por provar da relação entre o conto de Lewis Carroll e o uso efectivo de drogas alucinogénias pelo seu autor. É provável que houvesse nele referências a práticas correntes na Inglaterra Vitoriana ligadas ao uso do ópio, até mesmo por parte de alguns escritores desse final do século XIX, mas isso não chega para se provar a sua influência psicotrópica na criatividade do professor de matemática e lógica da Universidade de Oxford.


3 comments:

Ines Saraiva said...

bravo les chimistes, génial!

Ines Saraiva said...

e não querem pôr aqui umas coisas sobre o sätty? foi mesmo muito interessante...

µg said...

dentro em breve... dentro em breve...

freak out,
henrique