Fritz, the Cat

“Os anos 60? Tempos felizes. Tempos pesados.” É assim que começa o filme de 1972, “Fritz, the Cat”, e de facto dá o mote para os 78 minutos da animação inspirada nas personagens antropomórficas criadas por Robert Crumb em meados dos anos 60. Numa tradição tão antiga como a das Fábulas de Esopo e que passa pelas de La Fontaine, também nesta efabulação são os animais que falam e agem para revelar as nossas qualidades e defeitos demasiado humanos. Neste caso específico, retrata-se ainda uma época, a década de sessenta, numa América cheia de contradições: uma geração cheia de ilusões, mas que se refugia no seu discurso ideológico pan-revolucionário e comunitário para mascarar o hedonismo individualista que mais tarde se haveria de revelar. O filme é bem mais sarcástico e violento do que a banda desenhada criada por Crumb, mas o principal da caricatura do meio estudantil daquela década já nela se encontrava de modo bem explícito. Fritz, o Gato, é um felino bem-falante e sedutor que facilmente se envolve em complicações românticas por culpa de uma libido obcecante e das suas tropelias discursivas de poeta idealista e torturado, cuja imagem quer fazer passar.



Circunstâncias da história e da geografia fazem-no experimentar os vícios e costumes dos grupos vigentes. Dos hippies, cuja música de intervenção e protesto contra as guerras imperialistas americanas mostra um conjunto de convicções políticas e sociais, conservará sobretudo a crença no amor livre e descomplexado e na iluminação gnoseológica das drogas. Com os negros (corvos) de Harlem partilha a vida fora da lei e descobre as condições de pobreza e segregação a que são remetidos, pelo que, após ter sido salvo por um contrabandista e depois de uma apaixonada relação sexual com uma prostituta negra, descobre a sua vocação de Black Panther e apela à insurreição, a qual será rapidamente reprimida pelo napalm da força aérea americana e pelas autoridades policiais representadas por porcos. Salvo das perseguições multi-laterais pela sua namorada, uma raposa com sentido pragmático e realista, põe-se a caminho de São Francisco na sua companhia a qual se lhe revela cada vez mais entediante. A meio da viagem, abandona a namorada no deserto e conhece uma lebre heroinómana azul e a sua respectiva companheira, uma égua masoquista que se submete às suas humilhações e violações para não ficar sozinha. Apesar da compaixão que esta personagem lhe desperta, Fritz associa-se à lebre e a um grupo de terroristas de extrema-esquerda que planeiam fazer explodir uma central de energia. Apercebendo-se, no entanto, que se trata mais de uma libertação de energia sádica e destruidora do que de um protesto contra a sociedade industrial, Fritz ainda tenta evitar a tragédia, mas acaba por ser atingido na explosão que o leva a um hospital de Los Angeles. Aí é visitado pelas jovens amantes gatinhas nova-iorquinas e pela égua Harriet que fazem nele ressurgir a sua verdadeira natureza hedonista e abandonar o pseudo-heroísmo revolucionário.



Este retrato sarcástico e duro da geração de 60 teve um enorme sucesso de bilheteira e não obviou à classificação como primeiro filme de animação para adultos nem a polémicas e controvérsias. Desde logo com o próprio Robert Crumb que não reconheceu a sua personagem no filme e preferia que o seu nome nem lhe estivesse associado. O desgosto de Crumb foi de tal modo que resolveu nesse mesmo ano matar a personagem na última história de Fritz the Cat. Tal assassínio, porém, não evitou um segundo filme The Nine Lives of Fritz the Cat, menos politizado do que o filme realizado por Ralph Bakshi, mas explorando sobretudo o carácter sexual das suas aventuras e a sua familiaridade com as drogas alucinogéneas. A banda sonora de Fritz the Cat é alimentada pelo blues, rock, jazz e algum funk, de Bo Didley a Billie Holliday, passando por Charles Earland. Ouçamos alguns excertos.