Todd Schorr (Lowbrow Dreamland)

Preocupado com um mundo onde o perigo espreita a todo o momento, um Humpty-Dumpty ciclópico e coroado pondera, à beira de uma falésia, sobre a fragilidade e beleza da vida, contemplando uma estrela-do-mar espraiada na palma da sua mão. Por detrás, uma nuvem em forma de cogumelo atómico ameaça distante e silenciosa uma paisagem natural sublime. “Antidote for a worrysome world” é o título desta pintura em acrílico sobre painel do artista norte-americano Todd Schorr. As cores vivas e as formas pneumáticas do personagem convocam o universo fílmico de Walt Disney, mas o dilema existencial desse ovo de um só olho, colocado perante o abismo, ressoa a angústia daquele príncipe da Dinamarca, na peça de Shakespeare, que hesita com a caveira do seu bobo – Yorick - na palma da mão. Num outro quadro – “The Spectre of Monster Appeal” -, uma criança minúscula é exposta, à entrada de uma feira popular, com uma pletórica confusão de monstros, figuras fantásticas dos filmes de terror, criaturas de revistas de ficção-científica, desenhos animados deformados pelo vigor e ritmo das cores e traços do artista que retrata, de modo auto-afectivo, a vida ígnea e borbulhante da sua própria imaginação, atormentada desde muito cedo pelas imagens projectadas pelo ávido consumo de televisão, cinema e banda-desenhada. Numa outra tela - The Clash of Holidays -, que gerou alguma polémica nos meios mais tradicionais de uma comunidade de Palm Beach, no sul da Flórida, Schorr representa os ícones das festas tradicionais, o Pai Natal e o Coelho da Páscoa degladiando-se ferozmente, com um punhal e um machado ensanguentados nas suas mãos, enquanto o Menino Jesus, coroado de espinhos, se lambuza com uma orelha de chocolate e Rudolph, a rena natalícia de nariz vermelho, contempla despreocupadamente o combate.



A arte de Todd Schorr explora, portanto, a violência latente e por vezes patente da cultura popular, veiculada pelos media, sobretudo a que tem a ver com as imagens injectadas nos mais jovens e adolescentes, recontextualizando-a em cenários hiper-realistas e com óbvias referências à matriz judaico-cristã dessa mesma cultura. Neste sentido, trata-se quase de um trabalho de exorcismo e interpretação psicanalítica das dinâmicas do desejo que perpassam a cultura de massas. Este tipo de arte tem sido enquadrado num movimento artístico que recebeu o nome de Lowbrow ou Pop Surrealism. Na verdade, a Lowbrow art é precisamente aquela que se opõe à Highbrow art, ou seja, às belas artes, as mais conceituadas, as que são filtradas por um discurso de legitimação crítico e intelectualizado que a faz circular no mundo dos museus e da história da arte. Mas desde finais dos anos 70 que um grupo de artistas em Los Angeles, nomeadamente Robert Williams e Gary Panter, oriundos da cultura dos fanzines e banda desenhada underground, da cultura punk e de outras subculturas de rua, decidiram expor e promover uma arte mais popular e espontânea, afastada do discurso académico mas mais próxima do gosto dos consumidores. Outros artistas como Mark Ryden, Joe Coleman, Manuel Ocampo e Todd Schorr juntaram-se, de certo modo, a este movimento e têm vindo a ganhar uma maior visibilidade até que, por exemplo, no ano passado, o Museu de Arte San José, na Califórnia, organizou a primeira exposição individual do artista que veio da costa este mas que se estabilizou, desde finais de 90, no sul da Califórnia, onde vive e trabalha.



O psicadelismo das imagens de Schorr terá como origem a influência, reivindicada pelo próprio, dos posters de concertos e festivais de finais dos anos 60, executados por Victor Moscoso ou Rick Griffin, e das bandas desenhadas da revista Zap. Mas a referência à contra-cultura do oeste dos EUA é por exemplo óbvia em “Into the Valley of Finks and Weirdos” de 2002, onde aparecem monstros surfistas ou beatnicks tocadores de flauta navegando globos oculares alados. Porém, ainda que não houvesse estas referências biográficas e culturais à época dos ácidos, seria evidente para quem vê a natureza hipertrofiada das imagens fantásticas e metamórficas de Todd Schorr que há um efeito de manifestação lúcida da atormentada mente do autor, de tal modo que a tela é como que um doloroso e vibrante ecrã – pela sua intensidade - entre a meninge e o interior ósseo do seu crânio.
Como banda sonora para a experiência visual dos quadros de Schorr nada parece mais adequado do que a música de Carl Stalling, o famoso compositor dos desenhos animados da Warner Brothers.
Para mais informações sobre a vida e obra de Todd Schorr, ver aqui.
Sobre outros artistas Lowbrow e a cultura circundante, aqui.

Gulliver’s Travels (1969)

A metáfora da viagem é uma das mais comuns nos relatos de experiências com psicotrópicos. De facto, tais experiências são frequentemente apresentadas como percursos de descoberta em que o sujeito se encontra imerso numa percepção alterada da realidade, com uma determinada duração, alargada num tempo estesiológico, e se sente exposto aos perigos de uma transformação interior. Esta leitura da experiência psicadélica como viagem – “trip” - informou uma parte importante da expressão contra-cultural dos anos 60. Em1969, Andrew Loog Oldham, o famoso produtor dos Rolling Stones, fez uma adaptação discográfica das “Viagens de Gulliver”, inspirada por uma encenação londrina do clássico de Jonathan Swift, com Mike d’Abo, o vocalista dos Manfred Mann, no papel principal.


Na verdade, a novela de Swift era uma simples paródia dos “contos de viagens” que abundavam no início do século XVIII e uma sátira da sociedade inglesa da época. Que se saiba, o diácono de St. Patrick não teria por hábito consumir substâncias alucinogéneas, no entanto, delas não parecia necessitar alguém com uma tão fértil imaginação e tão apurado sarcasmo. Com efeito, as situações – a que impropriamente e com o risco de anacronismo poderíamos chamar – surrealistas, em que Lemuel Gulliver – o personagem e pseudónimo do autor das viagens – se encontra, quando se revela um gigante na ilha de Lilliput, ou uma miniatura perante os habitantes de Brobdingnag, ou ainda quando discute sobre os defeitos da natureza humana com os Houyhnhnms, equídeos de inteligência superior, são meras representações hiperbólicas das desproporções do homem e da sociedade, mas que convocam, de facto, uma experiência de pensamento, da imaginação, que exige a transformação da percepção quotidiana do mundo para descobrir o sentido das alegorias e metáforas. Nessa medida, a experiência da leitura das famigeradas viagens apelam a uma autêntica visão, manifestação psicotrópica. Não é pois de espantar que mais de duzentos anos depois elas continuassem a inspirar a imaginação colectiva de uma geração aberta a esse tipo de experiências, com ou sem as substâncias transdutoras das energias da mente.


O disco que escutamos já em fundo e que continuaremos a escutar mais um pouco é uma espécie de aberração discográfica, um produto circunstancial da sua época, mas também uma visão de futuro. Como já se disse, Gulliver’s Travels seria a adaptação para disco de um musical feito em Dezembro de 1968 em Londres, a partir das Viagens de Gulliver, mas quem não souber previamente desse facto, apenas episodicamente e com uma atenção redobrada poderá pensar no universo liliputiano ou na ilha voadora de Laputa, já que o disco é constituído por uma colagem cuja lógica desafia a sobriedade do ouvinte. Trata-se de samples – e nisto é que o disco é antecipador, pois inadvertidamente faz um uso extensivo das técnicas de samplagem e mix – com excertos de The Loving Spoonful, The Small Faces, do natalício “silent night” (oi?!?!), entre samples de vaudeville, do jingle introdutório da Twentieth Century Fox entre outros sons não identificados, misturados com os efeitos de estúdio exigidos pela cultura lisérgica e entrecortado pelo “hit”, “See the little people”, interpretado pela estrela da peça, o leadsinger Mike d’Abo. Imaginemo-nos, por momentos, na ilha onde todos tinham desenvolvido dotes especulativos e acusmáticos e flutuemos com eles ao som bizarro deste disco, antes de regressar à nossa terra natal, no barco do surpreendentemente sábio e generoso Yahoo português, Pedro de Mendez. Enjoy!

The Top 10 Syd Barrett Songs (in no particular order)

No dia 21 de Janeiro de 2010, o Laboratório Chimico apropriou-se de uma lista incluída na publicação Galactic Zoo Dossier para dar conta do difícil empreendimento que consiste em abordar a obra e a vida de Syd Barrett.

1. Lucifer Sam (1967) ...retirado de "Pink Floyd - The Piper At The Gates of Dawn"
2. Vegetable Man (1968) ...retirado de "Pink Floyd - Total Eclipse"
3. Rats (1970) ...retirado de "Syd Barrett - Opel"
4. Candy and a Currant Burn (1967) ...retirado de "Pink Floyd - The Early Singles"
5. Singing a Song In The Morning (1969) ...retirado de "Kevin Ayers - The Best Of..."
6. Interstellar Overdrive (1966) ...retirado de "Pink Floyd - The Piper At The Gates Of Dawn"
7. Jugband Blues (1968) ...retirado de "Pink Floyd - A Saucerful Of Secrets"
8. Apples and Oranges (1967) ...retirado de "Pink Floyd - The Early Singles"
9. Lanky Pt. 1 (1970) ...retirado de "Syd Barrett - Opel"
10. No Man's Land (1970) ...retirado de "Syd Barrett - The Madcap Laughs"

Download da fanzine Terrapin, uma publicação dos anos 1970 inteiramente dedicada a Syd Barrett.
Os Arquivos de Syd Barrett, site que contém artigos, fotografias, histórias, letras e muito mais.

Psicadelismo global compilado

Emissão dedicada a estabelecer um diálogo entre duas compilações recentemente editadas, e que passam em revista facetas distintas da música psicadélica: Forge Your Chains: Heavy Psychedelic Ballads and Dirges 1968-1974 (Now Again Records), e Psych Funk 101: A Global Psychedelic Funk Curriculum (World Psychedelic Classics). Sob premissas diferentes, estas duas edições ilustram um retrato universal da experiência psicadélica, incluindo temas provenientes dos quatro cantos do globo. Desde as paisagens mais contemplativas e evocativas de estados de alma melancólicos de Forge Your Own Chains, até ao êxtase funkie a transbordar de groove de Psych Funk 101, tudo vale para divulgar rock, soul, jazz e funk de países como os EUA, Alemanha, Nigéria, Irão, Turquia, Rússia, Egipto, Colômbia, Coreia do Sul, Tailândia, Suécia ou Etiópia.

Playlist de 7 de Janeiro de 2010:

Husnu Ozkartal Orkestrasi - Su Derenin Sulari (Psych Funk 101)
Mulatu Astatke feat. Belaynesh Wubante and Assegedetch Asfaw - Alemiye
Petalouda - What You Can Do With Your Life
Ofege - It's Not Easy (Forge Your Own Chains)
D. R. Hooker - Forge Your Own Chains
The Group - The Feed-Back (Psych Funk 101)
Damon - Don't You Feel Me (Forge Your Own Chains)
Staff Carpenborg and the Electric Corona - All Me Should Be Brothers of Ludwig (Psych Funk 101)
Baby Grandmothers - Somebody's Calling My Name (Forge Your Chains)
Top Drawer - Song of a Sinner
Sin Jung Hyun & The Men / featuring Jang Hyun - Twilight


Acid Soul




O Laboratorio Chimico de 17 de Dezembro foi dedicado à soul psicadélica. Se é verdade que no imaginário da música popular a soul music repousa aparentemente resguardada dos devaneios psicotrópicos de outros congéneres, não é menos verdade que paralelismos com o psicadelismo podem ser vislumbrados, na busca encetada por ambos rumo à transcendência, libertação, ou simplesmente, a uma atitude escapista.
A utilização de electrónica no contexto da popularização, na década de 60, do acesso a técnicas de manipulação de estúdio e a material inovador - os sintetizadores Moog, por exemplo - foi um dos aspectos presentes na génese da soul psicadélica. Particularmente, a fusão do vocabulário do rock psicadélico - feedback, a electricidade do fuzz, reverb e wha-wha das guitarras, e os teclados - com a contemplação humanista e celebratória da soul, em muitos casos já com uma aguçada capacidade de imersão nas consciências quimicamente alteradas da segunda metade da década de 60, terá sido o que de forma mais clara possibilitou o cunho psicadélico da soul. Grupos como Sly & The Family Stone ou The Parliaments / Parliament (mais tarde os Funkadelic) terão sido alguns dos mais ilustres representantes da soul que provou e abusou de poções lisérgicas emanadas de guitarras, ambos apropriadamente adornados de exuberantes vestimentas.
Mas o catalisador deste movimento terá sido um tal de James Hendrix, que chamou a atenção de Ronald Isley (líder dos The Isley Brothers) enquanto explorava a sua guitarra num bar de hotel, no Harlem. Ao integrar Hendrix no grupo, os The Isley Brothers conceberam a soul music insuflada de electricidade flamejante da guitarra amplificada a fumo de marijuana.
Tal filão foi vislumbrado pelo lendário produtor/compositor da Motown, Norman Whitfield, que escutou o futuro nos delírios de Sly Stone e de George Clinton. Whitfield adoptou e reconfigurou as coordenadas das sinergias da soul e do rock psicadélico em muitos dos seus trabalhos de produção (casos de The Tempations, The Debonaires ou Rare Earth), dando contributo decisivo para que a paleta sonora da soul music se expandisse até territórios até então nunca antes trilhados. Um outro exemplo visionário foi o de Charles Stepney, que produziu o disco inaugural dos Rotary Connection, no qual, valendo-se da sua educação musical formal e do gosto pelas composições de Georgy Ligeti e Henry Cowell, criou intrincadas camadas de uma produção saturada com laivos de atonalidade, arranjos pouco convencionais e uma cítara electrificada, que forneceram, também, o substrato psicadélico para a expansão da alma.

Durante o programa escutou-se:
Swamp Dogg - Synthetic World (Total Destruction to Your Mind)
The Isley Brothers - Move Over and Let Me Dance (In The Begining)
The Isley Brothers - Wild Little Tiger (In The Begining)
Sly & The Family Stone - Dance to the Music (Dance to the Music)
The Parliaments - (I Wanna) Testify (7")
The Parliaments - Red Hor Mamma (Osmium)
The Tempations - Psychedelic Shack (Psychedelic Soul)
The Debonaires
- I Want To Talk About It (World) (7")
Rotary Connection - Turn Me On (Rotary Connection)
Rotary Connection - Memory Band - (Rotary Connection)
Rasputin Stash - Hit it and Pass it (Devil Made Me Do It)
Rare Earth - I Know I'm Lossing You (7")
Barbara & Ernie - Somebody to Love (Prelude to...)

Ouvir.

Peyote Queen de Storm de Hirsch


Para download ou visualização através do UBUWEB

The Sound Of The Sitar




George Harrison, a quem são atribuídas as honras de introduzir a sitar na música popular ocidental, mais precisamente no tema "Norwegian Wood (This Bird Has Flown)" do álbum "Rubber Soul", deparou-se pela primeira vez com este bizarro artefacto do distante oriente no cenário do filme "Help". O seu fascínio rapidamente se intensificou ao ponto de solicitar aulas junto do grande mestre Ravi Shankar, um dos mais conhecidos e reconhecidos praticantes da sitar que, depois de terminar os seus estudos com o músico Allauddin Khan em 1944 e resignar ao posto de director musical da All India Radio de Nova Deli, encetou uma peregrinação pelas Europas e Américas, levando aos ouvidos ocidentais as intricassias melódicas e as idiossincrassias instrumentais da música clássica indiana.

O choque de culturas, concretizado no encontro dos dois músicos em 1966, verteu ondas de impacto que se espraiaram em todas as direcções. A popularidade de Shankar aumentou exponecialmente, chegando inclusivamente a actuar no mítico festival de Woodstock, e as experiências de fusão realizadas por Harrison facultaram um impulso indispensável ao estabelecimento do "Raga Rock", uma designação habitualmente utilizada para descrever álbuns rock com forte influência sul-asiática. O advento deste estilo musical é comummente traçado ao lançamento do single "See My Friends" dos The Kinks em Julho de 1965, sendo que a segunda grande referência cabe aos The Byrds e a "Eight Miles High", editado em Março de 1966.

Na segunda metade dos anos 1960, a moda da sitar cresceu a tal ponto que, em 1967, a Coral Instrument Company decide lançar no mercado a primeira sitar eléctrica, a "Coral Electric Sitar", que se tratava, no fundo, de uma guitarra eléctrica desenhada por forma a mimetizar o som do instrumento tradicional indiano. A sitar original, essa acredita-se ter sido desenvolvida no séc. XIII e insere-se na família dos alaúdes, possuindo um longo pescoço que entroca numa câmara de resonância em forma de cabaça.

A introdução da sitar na música popular em geral, e na psicadélica em particular, pode ser considerada uma manifestação de orientalismo, uma espécie de reedição do movimento original do séc. XIX de fascínio por tudo o que é distante e exótico, traduzindo um ensejo onírico por um Éden perdido, situado muito para além do alcance do comum dos mortais (ocidentais, claro). Apesar de, eventualmente, se tratar apenas de um sonho, não deixa de ser um sonho agradável de ser sonhado e escutado.

Laboratório Chimico, Playlist 10 de Dezembro de 2009:
The Dave Pike Set - "Mathar" (Electric Psychedelic Sitar Headswirlers Vol. 9)
The Beatles - "Norwegian Wood (This Bird Has Flown)" (Rubber Soul)
Ravi Shankar - "Raga Malkauns (Alap)" (Sound Of The Sitar)
Ravi Shankar - "Raga Puriya - Dhanashri/Gat In Sawarital (11 Beats)" (At The Woodstock Festival)
The Kinks - "See My Friend" (You Really Got Me: The Very Best Of The Kinks))
The Byrds - "Eight Miles High" (Fifth Dimension)
The Chemical Brothers - "Setting Sun" (Dig Your Own Hole)
The Rolling Stones - "Paint It, Black" (Aftermath)
Jimi Hendrix - "My Little One" (Axis Outtakes)
Wolfgang Dauner Quintet - "Take Of Your Clothes To Feel The Setting Sun" (Electric Psychedelic Headswirlers Vol. 7)
The Chemical Brothers - "The Private Psychedelic Reel" (Dig Your Own Hole)

Kosmische Musik I


As palavras de Erik Davis na introdução do seu ensaio "Kosmische", no recente
Krautrock: Cosmic Rock and its Legacy (Black Dog Publishing), e aqui deixadas, deram o mote para dois programas dedicados à Kosmische Musik, capítulo crucial da música progressiva psicadélica germânica da primeira metade da década de 70.

Neste primeiro programa ouviu-se:

Tangerine Dream - Cold Smoke (Electronic Meditation)
Klaus Schulze - Conphära (Cyborg)
Cosmic Jokers - Kinder des Alls III (Cosmic Jokers)
Walter Wegmüller - Die Herrscherin (Tarot)
Sergius Golowin - Die Hoch Zeit ( Lord Krishna von Goloka)
Cozmic Corridors - The Summit (st)
Popol Vuh - Vuh (In Der Gärten Pharaos)
O Pulsar Ciclotímico do Amola-Tesouras
(Crónica de Nuno Fonseca sobre "Mandalas", dos Limbus 4)

Limbus 4 – “Mandalas” (1970)

Mandala é a palavra sânscrita que significa círculo e, por extensão semântica, esfera, envolvência, comunidade. Mas, no contexto religioso, refere-se a uma representação geométrica que exprime a relação do homem com o cosmos ou de uma divindade com o que a envolve. O processo de construção de uma mandala é uma forma de meditação constante que acompanha movimentos meticulosos e muito lentos, numa experiência ao mesmo tempo religiosa e criativa. Feitas normalmente com areia ou giz, as mandalas apresentam-se muito coloridas e são, por fim, ritualmente destruídas. Foi todo este conceito que inspirou o projecto alemão, Limbus 4, na elaboração do álbum “Mandalas”, editado em 1970, pela lendária Ohr Records. A inspiração etno-religiosa é aliás notória no nome das faixas e traduz-se ainda etnomusicalmente na escolha dos instrumentos usados: para além dos instrumentos ocidentais – violoncelo, baixo, órgão e viola – as flautas transversais, as tablas, e os bem mais exóticos totalophone, tsikadraha, kazoo ou o valiha faray. Sendo, no entanto, uma interpretação alemã da música cósmica, nos anos 70, não é de admirar que aquelas sonoridades apareçam filtradas pelo uso de alguma electrónica e pelo experimentalismo vanguardista da época.
O projecto Limbus havia começado em 1968, na cidade de Heidelberg, procurando fundir, de um modo singular, o jazz, o folk e o espírito de experimentação musical. Um primeiro disco havia sido editado, enquanto eram um trio acústico, os Limbus 3, que também figuram nesta Lista, com o nome New-Atlantis, em 1969. No ano seguinte, passam para Limbus 4, por se terem tornado para este álbum - “Mandalas”-, num quarteto, constituído por Odysseus Artner, Bernd Henninger, Matthias Knieper (o elemento adicional do grupo) e Gerd Kraus. Músicos dos quais muito pouco se sabe, excepto do último que nos anos mais recentes terá pertencido a um bizarro projecto de nome www.knagg.nett e aos Metalimbus. O próprio nome Limbus refere-se a um grupo étnico do Nepal, o que reforça o carácter orientalizante deste projecto. Não sabemos, porém, se foi apenas o fascínio da filosofia e religião orientais que determinaram esta atracção cósmica e musical dos Limbus ou se o factor enteogénico teve a sua parte de responsabilidade.
O disco é assimetricamente dividido em três faixas no lado A e apenas uma longa faixa no lado B. “Dhyana” é outra palavra de origem sânscrita que designa um estado de meditação nas tradições Hindú e Budista, equivalente ao Zen japonês, por exemplo. É este estado que visa o auto-conhecimento que determina o transe musical desta primeira faixa do disco, onde a entoação do famoso ohm parece a princípio dobrar o órgão monódico e é depois progressivamente engolido pelo caos improvisado dos instrumentos de cordas, da percussão e dos sopros. “Kundalini” é a energia cósmica que jaz adormecida ou “enrolada como uma cobra” no Muladhará Chakra, um centro de força localizado junto do sacro e dos órgãos genitais. Ela precisa de ser despertada e conduzida pela meditação, ao longo da coluna vertebral e dos vários chakras, como parece ser traduzido musicalmente nesta segunda faixa do disco. A terceira faixa parece ser um curto “haiku” construído a partir da experiência de improvisação que estes músicos aprenderam no free-jazz. Finalmente, e ocupando todo o lado B, “Plasma” é um longo exercício de exploração das virtualidades de comunicação entre as sonoridades orientais e as experiências da música contemporânea, transferindo assim a retrogradabilidade rítmica e a microtonalidade típicas da música indiana para o contexto ocidental. Fiquemos com “Haiku” e depois “Plasma”. Em fundo, ouvia-se “Dhyana”.

Ouvir.

What soundtrack was playing during your trip?


Imagine you are standing alone on a craggy windswept sea cliff beneath a moonless night sky. You spread your arms out at your side and slowly you begin to ascend, a dreamlike absorption into the dark embrace of the galaxy. You are rocketing through the stars like a spectral eyeball shot out of a quantum cannon. The immensity of space swallows you up, and as nearly all of the perceptual frameworks you normally use to process reality evaporate, you become profoundly and ecstatically disoriented. Boundaries melt, nowhere is up or down, and your immense speed has morphed into a glacial drift. Your tiny mind is blown as you attempt to compass the conundrum of the infinite, and to plumb the meaning of the flickering flash of awareness you call your life in the light of this vast void of shifting three-dimensional geometries, this empty and shattered immensity, this cosmos.

Fica a questão. A resposta estará às 20 horas na RUC.

Reminiscente


A emissão de 19 de Novembro do Laboratorio Chimico percerreu as reminiscências induzidas pelo concerto em Coimbra, na transacta semana, de um trio de exploradores inter-estelares: Stellar Om Source, Steve Hauschildt e Mark McGuire (estes dois últimos pertencentes ao trio norte-americano Emeralds).

Christelle Gualdi, a francesa itinerante por detrás do nome Stellar Om Source, apontou ao infinito em ondulantes mantras hipnoticamente sintetizados; Hauschildt apresentou duas peças de contemplação cósmica pautadas pela melancolia; McGuire teceu intrincados efeitos caleidoscópicos na guitarra eléctrica. Se é certo que cada uma das actuações percorreu lugares próprios e idiossincráticos, configuraram igualmente um continuum sonoro, imagético e conceptual que convidou à imersão em memórias subliminares - ou, para utilizar a terminologia da moda, hipnagógicas - que convergiram para o espaço sideral onde gravitavam fragmentos alucinatórios de ambientalismo kraut/kosmische da década de 70 e do minimalismo celestial de Terry Riley.

A revisitação da memória presente foi assim preenchida:
Mark McGuire - Let Us Be the Way We Were (Let Us Be the Way We Were)
Ashra - Deep Distance (New Age of Earth)
Steve Hauschildt - The Critique of the Beautiful (The Critique of the Beautiful)
Klaus Schülze - Neuronengesang (Cyborg)
Edgar Fröese - NGC 891 (Aqua)
Stellar Om Source - The Oracle (Rise in Planes)
Terry Riley - 18th of April 1972, Los Angeles (Persian Surgery Dervishes)

A monstrous psychedelic bubble exploding in your mind

Hoje à noite no local do costume:

L'Underground Psychédélique Musical Français: Un regard

Depois do destaque a Heldon, 15 dias volvidos voltámos ao panorama musical gaulês da década de 70. Tais coordenadas espacio-temporais levaram-nos desta vez até outros grupos que ilustram uma parte do underground psicadélico daquele contexto, ficando no entanto claro que outros nomes relevantes não foram apresentados.
Muitos dos grupos que destacámos criaram música que, num primeiro relance, dificilmente poderá ser considerada de forma categórica como psicadélica. Tratou-se, em muitos casos, da materialização do clima experimental que se respirava na época, fortemente galvanizado pelo pós-Maio de 68 e pelo seu contexto reivindicativo e libertário. Diga-se que, embora o rock psicadélico anglo-saxónico tenha influenciado largamente alguns dos nomes apresentados, a sua sonoridade é heterogeneamente informada pela vanguarda do free-jazz ou pelos ecos do rock electrónico kraut/kosmische dos seus vizinhos germânicos, cruzando a herança da musique concréte do GRM com matizes de composição contemporânea, ou com o jazz-rock de Canterbury, ou até mesmo pela tradição da chanson francaise.
É contudo possível, e de resto um exercício bem apropriado à bancada de experiências deste Laboratorio Chimico, procurar extrair de uma dúzia de álbuns - qual néctar psicotrópico pronto a ser virtualmente derramado pelas ondas hertzianas - momentos que ilustram o compromisso destes músicos na superação experimental de barreiras estilísticas, quiçá insuflados por um sistema nervoso central já liberto dos seus padrões e estruturas comuns, e assim, portanto, comprometidos com a causa psicadélica.

Para um olhar sobre o assunto o livro L'Underground Musical en France, de Éric Deshayes e Dominique Grimoud (Éditions Le Mot et le Reste, 2008) pode ser uma boa ideia.

Ouviu-se:
Subversion - Submersion (Subversion)
Semool - Essai 1 (Essais)
Fille Qui Mousse - Cantate Disparate (Trixie Stapleton 291)
Red Noise - Sarcélles C'est L'Avenir (exct.) (Sarcélles-Lochères)
Philippe Besombes - La Ville + Boogiemmick (Libra)
Lard Free - Acid Framboise (Lard Free)
Ose - Orgasmachine (Adonia)
Spacecraft - Lumiére de Lune (Paradoxe)
Patrick Vian - Sphéres (Bruits et Temps Analogues)
Verto - Strato (exct.) (Krig Volubilis)
Jacques Thollot - Qu'ils se Fassent un Village, Oui Bien C'est Nous Qui S'en Allons (Quand le Son Devient Augu, Jeter la Girafe a la Mer)
Jean Guerin - Triptik 2 (Tacet)

Ouvir.

A Grande Mãe


No dia 22 de Outubro de 2009 o programa debruçou-se sobre os primeiros registos da extensa discografia de Franz Zappa e do seu grupo Mothers of Invention. Para nos ajudar nesta tarefa, recorremos aos textos da autoria de César Figueiredo, inseridos no livro "Frank Zappa - A Grande Mãe", editado em 1988 pela Fora de Texto, Cooperativa Editorial de Coimbra.

As músicas que por aqui se ouviram foram:
The Mothers of Invention - "The Return of the Son of Monster Magnet" (Freak Out! / 1966)
The Mothers of Invention - "Plastic People" (Abolutely Free / 1967)
The Mothers of Invention - "The Duke Of Prunes" (Abolutely Free / 1967)
The Mothers of Invention - "Amnesia Vivace" (Abolutely Free / 1967)
The Mothers of Invention - "The Duke Regains His Chops" (Abolutely Free / 1967)
Frank Zappa - "Teenage Grand Finale" (Lumpy Gravy / 1968)
The Mothers of Invention - "The Chrome Plated Megaphone of Destiny" (We're Only In It For The Money / 1968)
The Mothers of Invention - "Flower Punk" (We're Only In It For The Money / 1968)
The Mothers of Invention - "How Could I Be Such a Fool" (Cruising with Ruben & The Jets / 1968)
Frank Zappa - "Willie the Pimp" (Hot Rats / 1969)
The Mothers of Invention - "WPLJ" (Burnt Weeny Sandwich / 1970)
The Mothers of Invention - "Igor's Boogie, Phase One" (Burnt Weeny Sandwich / 1970)
The Mothers of Invention - "The Little House I Used to Live In" (Burnt Weeny Sandwich / 1970)

Ouvir.
A equipa do Laboratório Chimico agradece à Tânia Madureira o gentil trabalho de digitalização da capa do livro acima representada.

Ritmos do Oriente


Nos dias que correm dificilmente associamos os países do Médio Oriente a um contexto social de produção cultural e, muito menos, aos movimentos psicadélicos da década de 1960. Não obstante, e à semelhança de outras regiões do globo, também nesses tempos a Anatólia, o Planalto Iraniano, o Norte de África e o Crescente Fértil foram invadidos pela música rock que emanava do Reino Unido e dos Estados Unidos, dando origem a uma geração de músicos, pouco ou nada (re)conhecidos no Ocidente, que concebeu uma das mais interessantes correntes do psicadelismo. Quem diria que Beirute era então considerada a Monte Carlo do Oriente?

A disseminação da cultura musical ocidental não ocorreu de forma homogénea, alterando-se a permeabilidade conforme os ditames políticos e religiosos dos diferentes países em apreço. Na Turquia, o grande consurso de bandas Altin Mikrofon, organizado pelo jornal Hürriyet, é notável, não só pela divulgação que proporcionou, mas também pelo conjunto de regras imposto aos participantes. Estes tinham de apresentar músicas em Turco ou reformular alguma melodia tradicional, mas eram igualmente encorajados a adoptar uma instrumentação e estilo de execução ocidentais. Importante será notar que de todas as subculturas musicais emergentes na década de 1960, o psicadelismo foi aquela que melhor recepção encontrou na Turquia. A veia de orientalismo que permeia parte substancial da produção musical psicadélica agradou a gregos e a troianos, aos conservadores arreigados à música tradicional que fazia parte integrante e fundamental desta fusão, e aos progressistas entusiasmados pelas inovações técnicas e estílisticas que esta fórmula igualmente comungava.


O Laboratório Chimico dedicou duas emissões ao psicadelismo oriundo do Médio Oriente, mas dada a riqueza e fertilidade do terreno, uma nova colheita poderá, eventualmente, ter lugar no futuro.


Various Artists - "13 Youth Radio of the Syrian Republic" (I Remember Syria Vol. 1)
Apaslar - "Sans Cocugu" (Turkish Delights: Beat, Psych and Garage Ultrararities from Beyond the Sea of Marmara)
Omar Khorshid and his Guitar - "Takkasim Sanet Alfeyn" (Rhythms From the Orient)
Beybonlar - "Nenni" (Turkish Delights: Beat, Psych and Garage Ultrararities from Beyond the Sea of Marmara)
Erkin Koray - "Cicek Dagi" (Turkish Delights: Beat, Psych and Garage Ultrararities from Beyond the Sea of Marmara)
Les Mogol (Mogollar) - "Ilgaz" (Danses et Rythmes de la Turquie)
Les Mogol (Mogollar) - "Madimak" (Danses et Rythmes de la Turquie)
Baris Manço - "Kalk Gidelin" (Ben Bilrim)
Baris Manço - "Sani Gizelmi Mehmet Aga" (Yeni Bir Gun)
Mustafa Ozkent Orkestrasi - "Dolana" (Gendik Il Elele)
Googoosh - "Respect" (Raks Raks Raks: 17 Golden Garage Psych Nuggets From the Iranian 60s Scene)

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Playlist, 29 de Outubro de 2009
Omar Khorshid and His Guitar - "Raqsed El Fada" (Rhythms From the Orient)
Omar Khorshid and His Guitar - "Teleya Mahla Mourah" (Rhythms From the Orient)
Sir Richard Bishop - "Sidi Mansour" (The Freak of Araby)
Mohamed 'Mike' Hegazi and his Golden Guitar - "Hebbena" (Belly Dance Melodies and Rhythms)
Mohamed 'Mike' Hegazi and his Golden Guitar - "Nouni" (Belly Dance Melodies and Rhythms)
John Berberian and the Rock East Ensemble - "The Oud and the Fuzz" (Middle Eastern Rock)
John Berberian and the Rock East Ensemble - "3/8 + 5/8 = 8/8" (Middle Eastern Rock)
The Devil's Anvil - "Wala Dai" (Hard Rock From the Middle East)
The Devil's Anvil - "Selim Alai" (Hard Rock From the Middle East)
The Devil's Anvil - "Misirlou" (Hard Rock From the Middle East)
The Orient Express - "Fruit of the Desert" (The Orient Express)
The Gurus - "Louie Louie" (... Are Here!)
Omar Khorshid and His Guitar - "Laylet Hob" (Rhythms From the Orient)

Heldon


A emissão inaugural do Laboratório Chímico na nova grelha de programação da RUC foi dedicada ao seminal grupo francês de rock electrónico Heldon. Este grupo, veículo sonoro do génio de Richard Pinhas, gravou sete álbuns entre 1974 e 1979 (e um outro em 2001). Durante este hiato temporal Pinhas encetou uma profícua carreira a solo e diversas colaborações com nomes tão díspares como Pascal Comelade, ou recentemente com Merzbow.

A sonoridade de Heldon poderá ser entendida como a sublimação da energia exuberante do rock pela lógica calculada dos sintetizadores, e uma estética informada, quer pela filosofia de Nietzsche e Gilles Deleuze, quer pela literaura de ficção científica e ciberpunk de Philip K. Dick, Normand Spinrad ou Maurice Dantec. Foi com este último que Pinhas, em 1999, delineou o projecto Schizotrope, um tributo musical e spoken-word ao mentor Deleuze, que havia falecido quatro anos antes. A voz de Deleuze é mesmo utilizada em "Le Voyageur", um tema integrado num dos dois 7´´ lançados em 1972 enquanto Schizo, um grupo embrionário do que dois anos volvidos seria Heldon. Nesses anos, Pinhas dedicou-se ao estudo e docência da filosofia na Sorbonne, tendo a sua tese de doutoramento - A relação entre a esquizoanálise e a ficção científica - deixado antever futuras incursões pelos destroços de um apocalipse tecnológico.

No primeiro LP de Heldon, "Electronique Guérilla" - lançado em 1974 pela Disjuncta (Deleuze faz-se ouvir em "Quais marchais, mieux qu'en 1968", novo nome para o tema referido em cima) -, a exploração da ligação homem-máquina (sintetizador-guitarra) é indissolúvel da profecia nietzschiana que aponta para que a música do futuro reconcilie a antinomia mecânica e lírica da existência humana, como evocado nas paisagens narcóticas do álbum. No mesmo ano surge "Allez Téia", considerado como o registo mais atípico do grupo. Nele, Pinhas absorve o ambient e as repetições dos experimentos de Fripp e Eno, com incursões melodiosas e pastorais que, no contexto da discografia de Heldon, se assemelham a um estado de suspensão cerebral. O conceito híbrido da integrar a máquina no corpo é retomado em "It's allways rock n' roll" (1975), uma celebração da violência ciberactiva ou uma pré-cognição do que viria a ser alguma da música industrial que despontaria daí em diante.

"Agneta Nilsson", o quarto álbum do grupo, é a consciência computorizada do apocalipse, a concretização sónica do enamoramento de Pinhas pela submersão esquizofrenizante das distópicas novelas de P.K. Dick - ou a evocação do processo psíquico da desintegração do self. Também o niilismo filosófico e a anarquia social e política podem ser encontrados nas cinco perspectives do disco, com um dos temas a ser dedicado à organização germânica radical de extrema-esquerda Bahder-Meinhoff. "Agneta Nilsson" terá funcionado como uma fronteira na sonoridade de Heldon, já que nos três álbuns seguintes se vislumbra uma abordagem mais estruturada e controlada. "Un rêve sans conséquences spéciale" (1976) foi gravado pelo power-trio composto pela guitarra de Pinhas, a bateria de François Auger e o sintetizador de Patrick Gauthier, e é um disco intenso como uma tempestada diluviana que se abate sob um Éden cibernético.

O assalto ao sistema nervoso central prossegue nos discos seguintes, o denso "Interface" (1978), gravado já depois de incursões solistas de Pinhas, e o literal "Stand-By" (1979). No dealbar do século XXI Pinhas volta a gravar sob a égide de Heldon: "Only chaos is real", filosoficamente coerente e por isso mesmo musicalmente doente.

A discografia de Heldon foi alvo de reedições pela francesa Spalax a pela Cuneiform, nos EUA. A editora catalã Wha Wha Records reeditou recentemente os dois primeiros LP's do grupo com 7´´ que contêm os trabalhos dos Schizo.

Ouviu-se:
Schizo - Le Voyageur
Heldon- Zind (Electronique Guérilla)
Heldon - Back to Heldon (Electronique Guerilla)
Heldon - In the Wake of King Fripp (It's Allways Rock n' Roll)
Heldon - Côtes de Cachalots à la Psylocibine (It´s Allways Rock n' Roll)
Heldon - Perspective V (Agneta Nilsson)
Heldon - Marie Virgine C. (Un Rêve Sans Conséquences Spéciale)

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Barbarella

E Deus… criou a mulher! Ou melhor, Vadim criou BB, Brigitte Bardot, Barbarella, aliás, Jane Fonda. Vamos por partes: em 1956, Roger Vadim, casado com Brigitte Bardot, realiza o filme “Et Dieu…créa la femme”, impulsionando a carreira e o fenómeno mediático, mítico, de BB, o sex-symbol da década seguinte, ao mesmo tempo arquétipo de feminilidade e símbolo da emancipação da mulher nos anos 60. Revolução dos costumes, revolução iconográfica. Em 1962, Jean-Claude Forest inspira-se nas curvas pecaminosas e nos lábios carnudos de BB para criar a heroína de banda-desenhada, Barbarella. Tal como o modelo, a heroína das aventuras espaciais no século XL (40) incarna a emancipação sexual, moral e política da mulher, numa França gaulista, ainda pouco preparada para esses atrevimentos que haveriam de culminar no famoso Maio de 68. A banda-desenhada escandaliza e chega mesmo a ser considerada para adultos, talvez mais devido ao seu conteúdo “revolucionário” do que à carga erótica que, de facto, também tinha. Apesar da censura, ou talvez por causa dela, esta banda desenhada torna-se num pequeno fenómeno de culto entre a juventude europeia ilustrada que cresceu à luz dessa “nova vaga” que invadia os ecrãs e os cérebros. No mesmo ano da revolução cultural dos estudantes, estreou o filme que levava ao ecrã a personagem criada por Forest, Barbarella. Para desempenhar o papel, nada mais nada menos que Jane Fonda, então a terceira esposa de Roger Vadim, o qual realiza o filme em 1968, explorando o universo de bolhas da banda-desenhada e a atmosfera psicotrópica que se respirava na época.



A cena de abertura do filme é o memorável strip-tease na cápsula sem gravidade de Jane Fonda. Num cenário composto pela “Grande Jatte” pointilhista de Georges Seurat, por uma escultura de estilo romano e pelas paredes felpudas da sua nave espacial, Barbarella parece flutuar para fora do seu fato espacial prateado, ao ritmo da canção de Bob Crewe, a meio caminho entre o easy-listening e o psych-exploitation, como aliás o resto da banda sonora que escutámos em fundo. Não obstante a descontracção extática de Barbarella, oriunda de uma utopia de paz e amor, mas onde este não se pratica, antes se experimenta pela ingestão de pílulas criadas para o efeito, ela é enviada em missão pelo presidente da Terra, em busca do cientista Duran-Duran que criara uma destruidora arma, chamada Positron. Depois de chocar contra o planeta Lithium, nos arredores do qual se perderam as pistas do cientista procurado, Barbarella é atacada por bonecas assassinas, conduzidas pelas sobrinhas da rainha do mal, a Rainha negra de Sogo. Salva por um caçador anacoreta que consegue convencer a heroína a praticar sexo da forma arcaica, começa uma série de pequenas revelações e aventuras que a farão conhecer Pygar, o anjo cego que reaprende a voar depois de ter feito amor – à moda antiga - com Barbarella, e voar nos seus braços até à cidade de Sogo, a qual estava rodeada pelo Matmos, a essência líquida do mal. Descobre então que Duran-Duran é o porteiro da cidade das perversões e das sevícias, uma espécie de Sodoma governada pela lésbica rainha negra. Conhece ainda Dildano, um idealista e sonhador revolucionário que a salva de terríveis tormentas e que pretende recompensar com sexo tradicional, mas sem sucesso. Prova ainda a “Essência do Homem”, elixir psicotrópico feito a partir da energia dos escravos masculinos da rainha lésbica, mas é finalmente submetida à infernal máquina Orgasmatron que musicalmente a obriga a ter orgasmos forçados, porém Barbarella é uma mulher moderna e preparada para os mais altos níveis de gratificação sexual, sobrevivendo à terrível tortura. Num volte-face inesperado, Barbarella alia-se ainda com a rainha de Sogo para a defender de Duran-Duran, que entretanto resolve rebelar-se contra ela e tomar o poder total pela força hipnótica da câmara dos sonhos. As bolhas e as cores geradas pelo ambiente psicadélico baralharam com certeza o “stream of consciousness” do argumentista e é uma bolha criada pelo próprio Matmos que acaba por salvar a inocente Barbarella e a lésbica companheira real, que finalmente embarcam com Pygar na nave espacial da heroína, deixando em aberto um virtual “ménage à trois” durante a viagem de regresso à Terra.



San Francisco Sound


Uma hora de Laboratorio Chimico dedicada em exclusivo grupos oriundos de San Francisco, epicentro do sismo psicadélico norte-americano, onde a comunidade artística granjeou idiossincrasias que, no rock, viriam a ser apelidadas de San Francisco Sound.

Alinhamento do programa:

The Great Society - White Rabbit
The Greateful Dead - Mindbender + It Hurts me Too
Quicksilver Messenger Service - Song for Frisco
Big Brother & The Holding Company - Piece of my Heart + Turtle Blues
The Great Society - Somebody to Love

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Anti-LSD



As experiências com LSD e a sua promoção por intelectuais e universitários nos anos 60 provocaram uma propagação mediática que transbordou as margens da contra-cultura, chamando a atenção de uma cultura dominante conservadora e preocupada com o futuro dos seus filhos. Surgiram por isso, ainda, na segunda metade da década, vários documentos em áudio e vídeo que, por vezes, não se limitaram a descrever de um ponto de vista jornalístico o fenómeno, mas a tentar demover os jovens dessas experiências, alertando para os perigosos efeitos e funestas consequências do malogrado químico. Na crónica de 8 de Outubro escutámos um excerto de um desses discos, editado em 1968, pela Key Records, e produzido pelo ex agente do FBI, Willard Cleon Skousen. Narrado pelo próprio - um mórmon conservador de extrema-direita que havia escrito, em 1963, o controverso “The Naked Communist” e que havia lidado com a delinquência juvenil aquando do seu trabalho no Federal Bureau of Investigation – o disco, denominado “Instant Insanity Drugs”, alerta os pais e educadores preocupados para o flagelo do LSD num tom pedagógico e condescendente. Para dar uma ideia do conteúdo do disco, na capa do LP figurava uma mala com a seguinte inscrição: “Esta mala poderia transportar L.S.D. em quantidade suficiente para incapacitar todo o homem, mulher ou criança dos Estados Unidos. O que vai você fazer contra isso?”



Mais tarde, este LP foi re-editado em CD conjuntamente com um outro divertido item de contra-propaganda: LSD – The Battle for the Mind, produzido pela Bible Voice Inc e narrado por Willard Cantelon, que podemos ainda escutar em fundo, num registo mais abertamente religioso que reinventa a luta ascética contra os demónios tóxicos, para desviar os jovens do mau caminho, de modo a reencontrarem a verdade cristã.

Eis outro exemplo de contra-propaganda da mesma época:


A ubiquidade do número 7


No dia 7 de Julho de 2007, precisamente às 7 horas e 7 minutos da tarde, 77 bateristas juntaram-se no Empire-Fulton Ferry State Park em Brooklyn, sob a batuta dos dadaístas psicadélicos Boredoms, para um delírio percussivo megalómano de proporções nunca vistas até então. Os músicos encontravam-se agregados em células, cada qual liderada por um determinado baterista, que seguia diligente e atentamente as instruções de Yamantaka Eye. Acontece que, por coincidência cósmica, a maior parte destes indivíduos fazia parte de grupos representativos do psicadelismo musical contemporâneo, uma desculpa mais do que aceitável para uma hora de Laboratório Chimico. No final, espaço para escutar a gravação áudio de 77 Boadrum, nome do evento e do duplo cd, com dvd incluído, lançado posteriormente numa edição com a módica e apropriada quantia de 7777 yen.

Aqui fica a lista dos temas tocados durante o programa, cada qual seguido do nome do baterista:

Soft Circle - "Ascend" (Full Bloom) / Hisham Bharoocha
King Cobb Steelie - "Pass the Golden Falcon" (Junior Relaxer) / Robin Easton
Electroputas - "Profundo Rosso" (3) / Jaiko Suzuki
Volcano the Bear - "Burnt Seer" (Amidst the Noise and Twigs) / Aaron Moore
No-Neck Blues Band - "The Coach House" (Clomeim) / David Nuss
Oneida - Whats Up Jackal" (Rated O) / Kid Millions
Tall Firs - "Buddy / Baby" (Tall Firs) / Ryan Sawyer
Gang Gang Dance - "Bebey" (Saint Dymphna) / Tim DeWitt
Lightning Bolt - "Sound Guardians" (Earthly Delights) / Brian Chippendale
BOREDOMS - "SEVEN" (77 BOADRUM)

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Fifty Foot Hose (San Francisco) 1967-69

Em meados dos anos 60, na baía de São Francisco, o espírito do tempo era o da vida em comunidade, experimentação e criação colectiva. Interessava menos o talento de cada um do que a expressão em conjunto das idiossincrasias, na esperança de fazer despontar os “amanhãs que cantam”. Com um clima ameno que fazia crescer o flower power e promovia o encontro quotidiano de artistas, poetas e músicos em festivais, cafés concerto, happenings de rua, não é de estranhar que inúmeros grupos musicais polvilhassem a terra fértil da Califórnia, com certas características regionais, que permitiu mais tarde falar de um “Som de São Francisco”. Grateful Dead, Jefferson Airplane, the Great Society, Quicksilver Messenger Service ou Blue Cheer foram algumas das mais famosas bandas que reflectiram um cruzamento de influências poéticas da Beat Generation da “Renascença de São Francisco” na década anterior, dos sons da América profunda com o revivalismo do folclore tradicional, o Blues, o BlueGrass, mas também do jazz e do rock que no contexto da experimentação química e da expansão da mente se tornavam psicadélicos. Mas sem esquecer que o estuário do rio Sacramento configura uma das áreas mais vanguardistas do ensino universitário americano, não espanta que todas essas referências populares se misturassem também com referências musicais mais eruditas, como John Cage, Terry Riley – já aqui abordado nestas crónicas – ou mesmo Edgar Varèse. E foi alegadamente a escuta do “Poème Electronique” numa digressão americana de Varèse, em 1962, que despertou o interesse do adolescente e impressionável Louis “Cork” Marcheschi para a exploração das virtudes musicais da música de síntese.



Por volta de 1966, Marcheschi que tocava numa banda de Rhythm’n’Blues – The Ethix – que actuava em clubes da Califórnia e do Nevada, conseguiu editar um single muito apropriadamente denominado “Bad Trip”. Inusitadamente experimental e ruidoso, podia ser tocado a 33 ou a 45 rotações, sem perder a melodia ou o ritmo, já que, pura e simplesmente não estavam ali presentes. Mas o mais interessante é que só foi possível criar essa faixa com a ajuda de um instrumento electrónico criado e modificado pelo criativo músico - que mais tarde e sem espanto se tornaria num nome relevante da escultura cinética e instalação em espaços públicos – combinando theremins, caixas de distorção, um tubo de cartolina e um altifalante recuperado de um bombardeiro da IIª Guerra Mundial! Este mesmo instrumento seria a marca distintiva do grupo seguinte formado pelo futuro escultor, pelo guitarrista Dave Blossom e pela sua esposa Nancy, pelo baterista Kim Kinsey e pelo sempre intoxicado Larry Evans: estou a falar de Fifty Foot Hose. Menos famosa do que qualquer das bandas anteriormente referida, foi talvez das primeiras a cruzar consistentemente a electrónica no rock psicadélico, tornando-se um antecedente significativo das experiências de Pere Ubu, Chrome ou Throbbing Gristle.



Apenas um álbum, editado em 1969, mas gravado entre 1967 e 1968, ao mesmo tempo que acompanhavam em concerto bandas como os Blue Cheer, Chuck Berry ou os Fairport Convention, deixou como testemunho daquela época criativa e aberta à experimentação – não obstante o facto de o disco editado pela Limelight não ter tido sucesso comercial e isso ter ditado também o fim do projecto – um disco, “Cauldron”, heterogéneo mas paradoxalmente consistente. Foi sobretudo por razões financeiras e de sobrevivência que quase todos os membros da banda migraram para a produção californiana do musical “Hair”, tornando-se Nancy Blossom na sua voz principal, enquanto Cork Marcheschi regressou à escola de Belas-Artes para construir uma carreira sólida na escultura e instalação com néons e som ambiental, pondo assim fim aos Fifty Foot Hose… pelo menos durante os 30 anos seguintes, já que em 1996 Marcheschi e David Blossom reúnem-se mais uma vez para os fazer renascer, com alguns concertos ao vivo e com novos músicos, gravando no ano seguinte um novo álbum “Sing Like Scaffold”. Alguns membros dessa nova formação fundam nos inícios do século XXI uma banda cheia de humor dadaísta e espírito de experimentação patafísica, os Kwisp, lançando em 2004 “Teriyaki Vest Odissey”, ainda com a colaboração de Marcheschi. Ouviremos, no entanto, apenas faixas do disco seminal, “Cauldron”. “Fantasy” acompanhou-nos em fundo. Já de seguida, escutaremos a faixa homónima “Cauldron” e depois “Red the Sign Post” [faixa 6], onde a voz de Nancy ressoa o estilo de Grace Slick.

Site oficial do artista Louis "Cork" Marcheschi: http://www.corkmarcheschi.com/

Shdply Records, International Artists e...


Final de tarde de 10 de Setembro com início de recurso - Skullflower -, mas logo com o azimute apontado a uma ponte diacrónica e sincrónica que edificámos entre Northfolk, Virginia, e Houston, Texas, respectivamente, as cidades que albergam a Shdply Records e a defunta International Artists (embora no programa se tenha nomeado Austin, e não Houston...). A primeira edita grupos como os Super Vacations, Sore Eros ou Gary War, com discos lançados por estes anos, enquanto a segunda foi a casa-mãe de nomes incontornáveis da primeira vaga da psicadélia norte-americana, como The Red Krayola, 13 Floor Elevators ou The Golden Dawn - em ambos os casos, mencionando apenas os grupos que ouvimos. Pelo meio, tempo e espaço para escutarmos também um tema de Syd Barret, porque sim.


Ouvir aqui.

August pleasant


A 20 de Agosto ouviu-se:


Sun Araw - Heavy Deeds (Heavy Deeds, 2009)
Predator Vision - Real Aliens (Predator Vision & Sun Araw split, 2009)
High Wolf - The Boto (Animal Totem, 2009)
Peaking Lights - Owls Barning(Imaginary Falcons, 2009)
Gary War - Cyclop Eye (New Raytheonport, 2008)
Gary War - See Right Through (Horribles Parade, 2009)
Ducktails - Beach Boy Pleasant (Ducktails, 2009)
Ducktails - Friends (Ducktails, 2009)



Para ouvir é por aqui.

Les Shadoks



Há muito muito tempo, num mundo exclusivamente a duas dimensões, existia o povo dos Shadoks, que vivia no planeta à esquerda do céu, e o dos Gibis, que habitava o planeta da direita. Nenhum desses planetas era porém muito funcional: o planeta Shadok mudava constantemente de forma, provocando a queda acidental de alguns Shadoks no vazio interstelar; o planeta Gibi era chato e desequilibrado, de modo que, se os Gibis se ajuntassem em grande número num dos lados, faziam com que alguns acabassem por cair. No universo geocêntrico dos Shadoks existia no meio do céu um planeta grande e alegadamente vazio, ou seja, a Terra, que era relativamente equidistante dos planetas da esquerda e da direita, e que, ao contrário destes, parecia funcionar bem. Tanto os Shadoks como os Gibis decidiram migrar para a Terra. Mas isso não era fácil. Os Shadoks, apesar de serem pássaros, muito maus e estúpidos, possuíam duas asas ridiculamente minúsculas que não lhes permitiam voar, pelo que, quando tentavam viajar para fora do planeta, acabavam por cair. Os Gibis não possuíam asas, acabando por cair também mas, muito simpáticos e inteligentes, cedo começaram a construir um foguetão que lhes permitiria emigrar. Enquanto, os Gibis usavam da mais recente tecnologia e conseguiam a partir da atmosfera produzir um potente combustível chamado Cosmogol 999, o Professor Shadoko, o mais inteligente cientista dos Shadoks, construiu com coisas e tralhas um foguetão pesadíssimo para o qual não possuía combustível. Habituados a bombear (ZoGa, em shadokiano) por tudo e por nada, os Shadoks foram requisitados em massa para, numa imensa máquina inventada pelo Prof. Shadoko, bombear e assim aspirar o Cosmogol 999 dos Gibis através do espaço para obter o combustível de que necessitavam. A sua natural incompetência e estupidez causaram gargalhadas no planeta e rival e deram aos seus habitantes a oportunidade de gozarem umas férias no campo até eu os Shadoks percebessem que os seus esforços eram vãos…

O primeiro episódio da série de animação Les Shadoks foi emitido na televisão francesa, ORTF, apenas alguns dias antes de rebentar a crise estudantil do Maio de 68 e também ela iria mais tarde dividir os franceses entre shadokófilos e shadokófobos. Criada pelo animador Jacques Rouxel que entrara em 1965 para o departamento de investigação da ORTF e ajudara a desenvolver o “Animographe” de Jean Dejoux que permitiu criar os primeiros episódios, Les Shadoks contava ainda com a sonoplastia de Robert Cohen-Solal, membro do GRM, outra secção daquele departamento da ORTF, onde na década anterior Pierre Schaeffer havia inventado a Música Concreta, também com a voz do narrador Claude Piéplu e com algumas vocalizações bizarras de Jean Cohen-Solal, irmão do autor da banda sonora e um dos digníssimos nomes incluídos na lista de Nurse With Wound. Nascida de tão ilustres investigadores e artistas, a animação respirava o experimentalismo vanguardista, mas também o desconcertante humor surrealista e a lógica patafísica que pareciam fazer ressoar essas experiências de libertação da mente e dos costumes que caracterizaram a cultura dos anos 60. A aparente simplicidade e informalidade do traço dos desenhos e primitivismo da animação escondem, no entanto, níveis escondidos abertos à interpretação geopolítica da série. Parece evidente que os Shadoks simbolizam os franceses e as suas idiossincrasias numa visão auto-crítica e auto-derrisória, enquanto os Gibis, que usam sempre o chapéu de coco – de onde provém a sua inteligência e sanidade mental -, aludem aos ingleses, eternos rivais de Além- Mancha. Mas outras leituras foram feitas que tomavam os desenhos como uma alegoria surreal dos anos cinzentos da Guerra-fria.

Sendo esta uma crónica de rádio, destacámos sobretudo a banda sonora de Cohen-Solal, da qual ouvimos em fundo uma adaptação concertante feita para uma compilação dos arquivos do GRM, dedicada aos sons fabricados nos estúdios da ORTF por Bernard Parmegiani, Luc Ferrari, entre outros nomes, que foram usados em rádio, televisão ou mesmo na sonorização urbana dos transportes públicos franceses.

Catch-Wave (Takehisa Kosugi)

A heterodinagem é um fenómeno, estudado no âmbito do processamento de sinais e das ondas electromagnéticas, que consiste na geração de novas frequências pela mistura ou multiplicação de ondas produzidas por diferentes osciladores e a sua combinação resulta da aplicação das propriedades da função seno. Fascinado pelas consequências electro-acústicas da aplicação deste conhecimento trigonométrico, Takehisa Kosugi compôs as duas peças que constituem o seu mais celebrado disco “Catch-Wave”, gravado entre 16 e 17 de Setembro de 1974 e editado no ano seguinte. Violinista e musicólogo de formação, Kosugi electrificou o seu instrumento de eleição, em “Mano Dharma”, peça que constitui o lado A do disco, para improvisar, juntamente com as ondas produzidas por osciladores modificados por vento e luz, por rádio-transmissores e pelas próprias cordas vocais captadas pelo microfone, uma espécie de bailado electromagnético que se expande pelo estúdio, resultando numa instalação dinâmica inter-media, a qual haveria de reproduzir, aliás, em 1997, numa re-interpretação da instalação sonora dos anos 70.

Criador de instalações e performances, misturando vários media, com a ajuda de objectos do dia-a-dia, devidamente transformados e recontextualizados pela tecnologia electrónica, tem, desde os anos 60, quando fundou o Group Ongaku de música, teatro e happenings anti-musicais, ou quando foi reconhecido pelo movimento Fluxus, ou ainda, quando se tornou compositor/performer oficial da companhia de bailado do coreógrafo norte-americano Merce Cunningham (recentemente falecido), explorado as possibilidades da espacialização do som, como se pode constatar nesta faixa que escutamos já em fundo e, já de seguida, na faixa que constitui o lado B, “Wave Code #e-1”, onde uma frase vocal é gravada e manipulada electronicamente até à exaustão e à sua total irreconhecibilidade, fundindo-se por heterodinagem com as outras fontes sonoras em novas frequências que resultam da sua respectiva soma e diferença.



Takehisa Kosugi foi ainda membro do grupo de improvisação Taj Mahal Travellers, desde 1969 até meados de 70’s, altura em que o grupo se dissolveu e o violinista integrou a companhia de bailado já referida. Apesar da liberdade dos processos criativos de que sempre foi adepto, da inspiração meditativo-transcendental – evidente na peça "Mano-Dharma", ou seja, a expressão budista que designa “o desejo que nasce na mente” ou “especulação” - e do potencial sonoro alotrópico das suas composições, Kosugi recusou sempre a catalogação da sua música como psicadélica, alegando que essa música implica a produção de efeitos psicológicos alucinatórios que recusa estarem presentes nas suas intenções musicais. Não obstante, esta distanciação alegada pelo compositor, a verdade é que a sua produção musical ficou para sempre como inspiração de grande parte da música psicadélica produzida no Japão e ainda hoje é um ponto incontornável de referência neste capítulo da história do psicadelismo internacional. Fiquemos, portanto, com o lado B, “Wave Code #e-1”, de “Catch Wave”, por Takehisa Kosugi.